O Dia Internacional da Mulher é, historicamente, um marco de reflexão sobre direitos e igualdade. No universo da gestão condominial, esta data nos convida a encarar uma realidade muitas vezes omitida: os desafios estruturais e psicológicos que as síndicas enfrentam para exercer sua autoridade em um ambiente onde o machismo ainda tenta ditar as regras.
A Gestão Técnica sob o Crivo do Preconceito
Atualmente, a gestão de um condomínio exige competência multidisciplinar, especialmente quando conduzida por síndicas profissionais. No entanto, é comum observar a desqualificação dessas gestoras por meio de estereótipos de gênero. O discurso de que a mulher “é boa apenas na teoria” ou que “fica perdida diante de prestadores de serviço” é uma tentativa infundada de minar a confiança técnica da profissional. O comportamento “alfa” de alguns moradores, que utilizam grupos de WhatsApp para ironizar e questionar decisões com uma agressividade que não usariam com homens, não é “fiscalização”, é assédio moral.
A Violência Invisível e o Silêncio por Sobrevivência
Um dos aspectos mais dolorosos dessa realidade é o isolamento da gestora. Muitas síndicas, ao serem alvos de ataques e grosserias, optam por sofrer caladas. Elas não compartilham o ocorrido com seus próprios maridos ou familiares para evitar que a polêmica escale ou para poupá-los de novos conflitos. Esse silêncio não é aceitação; é um mecanismo de sobrevivência e proteção. Em um ambiente onde poucos têm a coragem de confrontar o “valentão” do prédio, a síndica se vê obrigada a absorver a toxicidade para manter a paz no condomínio, mesmo que isso custe sua saúde emocional.
O Reflexo Doméstico no Conselho
Infelizmente, a dinâmica de submissão doméstica muitas vezes transborda para as reuniões de Conselho. Moradoras que vivenciam o autoritarismo em casa podem acabar silenciando ou até validando a postura agressiva de seus companheiros contra a síndica. Ao confundirem falta de educação com “coragem”, essas vozes acabam por fortalecer o mesmo ciclo de opressão que as atinge, enfraquecendo a rede de apoio feminina necessária para uma gestão justa.
Conclusão: Um Chamado à Coletividade
A construção de um condomínio saudável não é dever apenas da síndica; é uma responsabilidade de todos. A desconstrução da mentalidade “alfa” — que confunde autoridade com grito e fiscalização com humilhação — é um convite urgente aos homens deste condomínio.
O combate ao machismo deve ser, sobretudo, uma pauta masculina. Ser um vizinho consciente é não se calar diante da grosseria de um par; é entender que a força de um homem não se mede pela capacidade de intimidar uma mulher, mas pelo respeito à sua competência. Que este 8 de Março marque o fim da convivência com o desrespeito e o início de uma gestão baseada na ética e na igualdade. O silêncio diante da injustiça é uma escolha, e hoje convidamos você a escolher o respeito.
Cleuzany Lott é advogada, com especialização em Direito Condominial, MBA em Administração de Condomínios e Síndica Profissional (Conasi). É Presidente da Comissão de Direito Condominial da 43ª Subseção da OAB-MG, em Governador Valadares, e 3ª Vice-Presidente da Comissão de Direito Condominial de Minas Gerais. Coautora do livro Experiências Práticas em Conflitos Condominiais, atua também como síndica, jornalista e palestrante, com foco na gestão condominial responsável, prevenção de conflitos e comunicação jurídica acessível.
