O Brasil atravessa uma transformação demográfica capaz de alterar profundamente a lógica do setor imobiliário nas próximas décadas. Incorporadoras, investidores e empresas ligadas à construção civil olham para a longevidade como uma nova frente de crescimento econômico, impulsionada pelo avanço da população acima dos 50 anos, pelo aumento do consumo desse grupo e pela falta de produtos residenciais adaptados a ele.
Atualmente, 29% da população brasileira já tem mais de 50 anos, percentual que deve chegar a 40% até 2044. Ao mesmo tempo, a taxa de fecundidade caiu de 6,28 filhos por mulher em 1960 para 1,55 atualmente, ficando bem abaixo do nível de reposição populacional, de 2,1 filhos. Os dados são de projeções oficiais do IBGE recolhidos em um panorama setorial produzido pela MV Marketing em parceria com a geroarquiteta Flavia Ranieri.
Isso representa um país mais velho, com menos filhos, mais pessoas vivendo sozinhas e novas exigências em torno do morar. O impacto econômico dessa mudança já é visível: a chamada economia prateada movimenta R$ 1,8 trilhão por ano no Brasil, valor equivalente a 24% de todo o consumo privado dos domicílios nacionais. A estimativa, baseada em dados do Data8 apresentados no relatório, é que esse mercado ultrapasse R$ 3,8 trilhões até 2044, quando alcançará 35% de participação no consumo do país.
Parte relevante desse dinheiro vai diretamente para habitação. Entre 26% e 30% do orçamento mensal da população madura é destinado à moradia. Ainda assim, a oferta imobiliária voltada a esse público continua concentrada em modelos tradicionalmente associados à dependência e ao cuidado assistencial, como as Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs) e as residências geriátricas.
Oportunidades no mercado
Enquanto as soluções existentes atendem majoritariamente pessoas acima dos 80 anos com algum grau de dependência — grupo estimado em cerca de 5 milhões de brasileiros —, existe um contingente de aproximadamente 54 milhões de pessoas entre 50 e 80 anos considerado pouco contemplado pelas incorporadoras.
Esse público não busca modelos institucionalizados de moradia, mas soluções capazes de combinar autonomia, convivência social, segurança, acessibilidade e serviços sob demanda. O comportamento de consumo reforça essa tendência. Sete em cada dez pessoas maduras acima dos 75 anos preferem envelhecer na própria casa, conceito conhecido como Aging in Place.
Ao mesmo tempo, 28,7% das pessoas que vivem sozinhas no Brasil têm 60 anos ou mais — somando mais de 5,6 milhões de idosos em domicílios unipessoais, o que representa a maior proporção entre todas as faixas etárias. Esse cenário tem levado o setor a discutir modelos residenciais mais flexíveis e menos segregados. Há uma rejeição crescente a propostas que isolam o público maduro e maior aderência a conceitos intergeracionais, integrados à vida urbana e conectados à lógica de facilidades.
Entre os formatos emergentes estão os condomínios residenciais para idosos independentes, cohousing, colivings voltados ao público 50+ e modelos inspirados no conceito de Living as a Service (LaaS). Este último transforma a moradia numa plataforma contínua que integra arquitetura acessível, tecnologia, hospitalidade e serviços escaláveis de bem-estar ao longo do tempo.
A lógica por trás desses empreendimentos parte da ideia de que o envelhecimento não será resolvido apenas com adaptações arquitetônicas pontuais. Os projetos voltados à longevidade exigem uma reformulação mais ampla, que harmonize o desenvolvimento do produto físico com uma operação inteligente, comunicação adequada e foco na experiência de morar.

