A rotina dos condomínios mudou nos últimos anos. Se antes a portaria recebia poucas encomendas por dia, hoje a circulação constante de entregadores de aplicativos, supermercados, farmácias e lojas de comércio eletrônico faz parte do cotidiano de praticamente todos os empreendimentos residenciais.
Essa nova dinâmica trouxe praticidade aos moradores, mas também abriu espaço para um tipo de crime que tem preocupado administradoras, síndicos e especialistas em segurança: os furtos e golpes praticados por falsos entregadores.
Utilizando mochilas térmicas, uniformes semelhantes aos de empresas conhecidas e até perfis em aplicativos, criminosos conseguem se passar por profissionais de entrega para acessar áreas internas dos condomínios, observar a rotina dos moradores e, em alguns casos, praticar furtos, roubos e outros delitos.
Para o Dr. Felipe Faustino, advogado especialista em Direito Condominial e sócio do escritório Faustino e Teles, o crescimento desse tipo de ocorrência demonstra que a segurança condominial precisa acompanhar as mudanças no comportamento da sociedade.
> “O condomínio moderno passou a lidar com um fluxo muito maior de pessoas. Isso exige protocolos de segurança mais eficientes. Não basta confiar apenas na aparência ou no uniforme de quem chega à portaria.”
O golpe começa antes mesmo da entrada
Segundo o especialista, muitos desses crimes não acontecem por falha tecnológica, mas por meio da chamada engenharia social — técnica utilizada por criminosos para conquistar a confiança de moradores e funcionários.
Os golpistas costumam agir de forma tranquila, demonstram conhecer a rotina do condomínio, mencionam o nome do morador, apresentam um pacote aparentemente legítimo e tentam criar um ambiente de urgência para evitar questionamentos.
> “Hoje, o criminoso estuda o condomínio antes de agir. Ele observa horários de maior movimento, identifica mudanças de turno dos funcionários, acompanha a rotina dos moradores pelas redes sociais e utiliza essas informações para tornar o golpe mais convincente.”
Em muitos casos, o objetivo inicial nem é entrar no apartamento, mas acessar áreas internas para mapear câmeras, identificar vulnerabilidades, observar veículos ou coletar informações que serão utilizadas posteriormente.
Em muitos casos, o objetivo inicial nem é entrar no apartamento, mas acessar áreas internas para mapear câmeras, identificar vulnerabilidades, observar veículos ou coletar informações que serão utilizadas posteriormente.
Uniforme não garante legitimidade
Outro erro bastante comum é acreditar que a utilização de uniforme ou mochila de determinada empresa seja suficiente para comprovar que a pessoa realmente presta serviço para aquela plataforma.
O advogado explica que muitos desses itens podem ser adquiridos facilmente ou até mesmo falsificados.
> “A identificação visual, sozinha, não garante segurança. O controle de acesso precisa ser baseado em procedimentos objetivos de conferência e não apenas na aparência de quem está entrando.”
Esse cuidado se torna ainda mais importante em condomínios que recebem dezenas de entregas diariamente.
Tecnologia ajuda, mas não resolve tudo
Portarias virtuais, reconhecimento facial, cadastro digital e sistemas eletrônicos representam um avanço importante na segurança condominial. No entanto, nenhuma ferramenta substitui protocolos bem definidos e treinamento constante.
> “Existe uma falsa sensação de que a tecnologia resolve todos os problemas. Na prática, a maioria das falhas continua relacionada ao fator humano.”
Segundo Felipe Faustino, sistemas modernos podem perder eficiência quando funcionários deixam de seguir procedimentos básicos ou quando moradores descumprem regras internas para facilitar o acesso de visitantes e entregadores.
O condomínio pode ser responsabilizado?
Essa é uma das dúvidas mais frequentes entre síndicos.
De acordo com o advogado, não existe uma resposta única para todos os casos.
A responsabilidade do condomínio dependerá da análise das circunstâncias, da existência de falhas na prestação dos serviços e da comprovação de eventual negligência da administração.
> “Cada situação precisa ser analisada individualmente. O simples fato de um crime ocorrer dentro do condomínio não significa, automaticamente, que haverá responsabilidade da administração.”
Por outro lado, quando ficar demonstrado que havia falhas previsíveis, ausência de controle de acesso ou descumprimento de protocolos mínimos de segurança, o cenário jurídico pode ser diferente.
O papel do síndico é cada vez mais estratégico
Para Felipe Faustino, a função do síndico evoluiu significativamente nos últimos anos.
Além da gestão financeira e administrativa, hoje ele também precisa atuar na prevenção de riscos.
> “Segurança deixou de ser apenas uma questão operacional. Ela passou a integrar diretamente a boa gestão condominial.”
Isso inclui revisar periodicamente os protocolos de acesso, promover treinamentos, atualizar procedimentos internos e conscientizar os moradores sobre boas práticas.
Moradores também precisam fazer sua parte
A segurança não depende exclusivamente da administração.
Alguns comportamentos cotidianos facilitam a atuação dos criminosos, como liberar a entrada de pessoas sem confirmação, compartilhar senhas de acesso, abrir portões para desconhecidos ou divulgar rotinas familiares nas redes sociais.
> “A segurança do condomínio é construída coletivamente. Quando um morador ignora os protocolos, ele acaba expondo toda a coletividade ao risco.”
Por isso, a conscientização dos condôminos é tão importante quanto o investimento em equipamentos.
Medidas que ajudam a reduzir os riscos
Segundo o Dr. Felipe Faustino, algumas ações podem aumentar significativamente a segurança dos condomínios:
– criar protocolos específicos para entregas e prestadores de serviço;
– confirmar previamente as entregas sempre que possível;
– orientar funcionários para nunca flexibilizar procedimentos de identificação;
– investir em treinamento periódico das equipes;
– revisar contratos com empresas responsáveis pela portaria e segurança;
– manter sistemas de monitoramento e controle de acesso atualizados;
– conscientizar os moradores sobre os riscos da liberação indiscriminada de visitantes;
– evitar que entregadores circulem livremente pelas áreas internas, salvo quando houver previsão e controle adequado.
> “Protocolos só funcionam quando são conhecidos e respeitados por todos. Segurança depende muito mais de disciplina do que de improviso.”
A prevenção ainda custa menos do que a judicialização
Além dos prejuízos patrimoniais, ocorrências envolvendo furtos costumam gerar desgaste entre moradores, perda da confiança na administração e, em alguns casos, processos judiciais que poderiam ter sido evitados.
Segundo o advogado, investir em prevenção é muito mais eficiente do que lidar com as consequências de uma falha.
> “O condomínio não deve esperar que um crime aconteça para revisar seus procedimentos. A gestão preventiva continua sendo a forma mais eficaz de proteger pessoas, patrimônio e evitar responsabilidades futuras.”
Conclusão
O crescimento dos golpes praticados por falsos entregadores é reflexo das transformações vividas pelos condomínios e exige uma nova postura por parte de síndicos, administradoras e moradores.
Para o Dr. Felipe Faustino, a tecnologia continuará sendo uma importante aliada, mas somente produzirá resultados quando vier acompanhada de protocolos claros, treinamento constante e participação ativa de toda a comunidade condominial.
> “Os criminosos estão cada vez mais sofisticados, e a gestão condominial também precisa evoluir. Segurança não é resultado de uma única medida, mas da soma entre tecnologia, planejamento, fiscalização e conscientização. É esse conjunto que reduz riscos e protege verdadeiramente os moradores.”
